Festival de Uma Cia Só no Gamboa Nova
Publicado em 26 fevereiro por Juliana Almirante-
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Teatro Gamboa Nova – Rua Gamboa de Cima, 3, Aflitos. Telefone: 3329-2418
Datas: 02, 03, 09,10, 23 e 24/02/2012, qui e sex, 20h
Preço: R$ 10 (inteira) R$5 (meia)
A mostra dirigida por Marcus Villa Góis apresenta as peças A Fonte Encantada, O Pedante e O Feiticeiro Fajuto, sempre às quintas e sextas, no Teatro Gamboa Nova. Em comum, os três trabalhos, que são apresentados por um único elenco formado por sete atores, tem a estética da Commedia dell’Arte. Para dar conta desse desafio, Álvaro Lemos, Cristiane Pinho, Marcos Machado, Marília Cunha, Maurício Oliveira, Rafael Medrado e Zé Carlos de Deus Jr exercitam a técnica mascarada e a improvisação no palco.



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Nos dias 27 e 28/02 (segunda e terça) faremos “O Mensageiro” no Teatro Gamboa Nova, 20h.
(Rafael Medrado saiu do elenco e em seu lugar entrou Togério Tomas)
Caro Rogério:
Você pediu minha opinião sobre a peça “O arrancadentes”, apresentada no “Festival de Uma Cia Só”, mas fiquei pensando: “Que tipo de comentário eu poderia fazer para contribuir com um grupo que já deve ter lido tudo ou quase tudo sobre o gênero commedia dell’arte? Então repensei: “Opa”! (voz da personagem) RSS…, mas nem todas as pessoas que assistem à peça devem ter tido tempo suficiente para ler sobre o assunto, pois, afinal, vivemos lutando contra o tempo e mal podemos nos dar conta das coisas com as quais nos ocupamos e, já que estou trabalhando com o conceito de grotesco na minha tese, decidi pinçar alguns fragmentos dos conceitos que estou utilizando para falar sobre a peça “O arrancadentes”.
Pois bem, primeiro acho que precisamos agradecer pela oportunidade de podermos assistir a um espetáculo que vem suprir uma carência estética do nosso país que, por ser muito jovem, enquanto a Europa estava se libertando da repressão religiosa e dando gargalhadas com a commedia dell’arte, nós estávamos sendo catequizados. Gostaria, ainda, de parabenizá-los pelo tratamento do figurino e da atuação das personagens que trouxeram de forma muito viva esse gênero teatral. Ali, percebem-se claramente os padrões ou tipos dessa comédia: o amoroso, a mocinha, o velho ingénuo, o fanfarrão, o pedante, o criado, o patrão e o astuto. Diga-se de passagem, o ator que fez o Arlequim, personagem astuto, trapalhão, picaresco, malandro, amalgamou tão bem as personagens do século XV / XVI com os tipos sociais do nosso presente que, se não fosse o figurino responsável pela marcação do tempo, nos passaria como um texto atual.
Bom, mas o que tem a ver a commedia dell’arte com o grotesco? Segundo o professor BORGES (UFU), “o mundo quimérico da commedia dell’arte contribuiu para a defesa do grotesco, como categoria estética” e, embora as representações grotescas sejam mais antigas, o conceito de grotesco é contemporâneo da commedia dell’arte (século XV), que quer dizer “caverna”, grotta em italiano. Daí vieram os termos la grottesca e grottesco. Não obstante, no processo de evolução conceitual, o sentido que apreendemos em “O arrancadentes” e na commedia dell’arte em geral, é o sentido que Mikhail Bakhtim nos apresenta a partir da obra de Rabelais em que o riso ou ridículo expurga a consciência da seriedade mentirosa, do dogmatismo, de todas as afetações que a obscurecem. Para Rabelais é preciso restituir ao leitor a faculdade de rir que o sofrimento lhe tirou e, para conseguir o efeito do riso, tanto em Rabelais quanto em “O arrancadentes”, recorre-se ao vocabulário de baixo calão alusivo às partes baixas do corpo e aos excrementos. Assim como no Pantagruel, de Rabelais, há um capítulo inteiro dedicado à temática da limpeza do cu, a peça “O arrancadentes” não deixa por menos. O vocabulário da peça é prodigioso. Meu Zeus! Aquele velho obsceno é ridículo!
Para finalizar, gostaria de ressaltar que, as imagens dos excrementos e da urina, que também aparecem na peça, “são ambivalentes como todas as imagens do ‘baixo’ material e corporal: elas simultaneamente rebaixam e dão a morte por um lado, e por outro dão à luz e renovam; são ao mesmo tempo bentas e humilhantes, a morte e o nascimento” (BAKHTIM).
Bem, como sei que o facebook não é uma canal adequado para leitura de textos longos, paro por aqui e espero que com essa pequena reflexão as pessoas possam assistir à commedia dell’arte, sobretudo, “O arrancadentes”, como um gênero tão importante quanto o trágico, pois, infelizmente, nossa herança aristotélica reservou o trágico para os espíritos nobres e o cômico para os ignóbeis.
Para aqueles que desejam se aprofundar no assunto, deixo a indicação da obra – BAKHTIM, Mikhail. A cultura popular na idade média e no renascimento: O contexto de Françoi Rabelais. São Paulo: Ed. Hucitec, 2010. Boas risadas para todos nós.